Corri, para longe. A areia gelada e húmida da noite arranhava-me os pés descalços e eu tinha frio. Tanto frio! Os olhos ardiam, a boca estava seca e a roupa colava-se ao corpo com a humidade, mas nada disto importava tanto como correr. Fugir, mais precisamente.
É engraçado como o desespero me guiava, como o medo me controlava, como o pânico me devorava. Não pensava, não podia, mas corria. Para tão longe!
O som das ondas revoltas era um eco muito distante na minha cabeça. Só conseguia ouvir a minha respiração acelerada e rouca, o bater descompassado e anormal do meu coração, as minhas passadas pesadas e rápidas e um zumbido persistente. Doia-me tudo.
É engraçado como esquecemos tudo quando temos que correr. E então fugi, para bem longe. Longe de ti.
(o rascunho escondido, o que julgava já perdido; publicá-lo era o pretendido)